segunda-feira, 14 de abril de 2008

CAPÍTULO 1 - A PROFECIA

− Precisamos encontrá-lo.

Encontrar quem?

− O Último Imortal.

Acha mesmo que ele poderá nos ajudar?

− É preciso. Ele é nossa única esperança.

− É verdade. Nessa época de trevas talvez só ele possa nos ajudar.

− Antes ele terá de ajudar a si mesmo.

O outro monge balançou afirmativamente. O céu estava estrelado, e os dois estavam sentados ao redor de uma fogueira, cobertos por suas túnicas. A mata ao redor formava uma parede que obstruía a visão, tornando a fogueira um pequeno ponto brilhante no meio de toda a escuridão.

− Ele é novo?

O outro monge sorriu.

− Ele nem nasceu.

− E como saberemos quem ele é?

Não leu a profecia? “Dentre três um surgirá, e o Salvador se tornará”.

− Não entendo isso.

− Com o tempo entenderá.

Muito distante dali, do outro lado do continente, um jovem caçador vagueia pela penumbra da floresta. Com seu arco em punhos, espreita à frente. Ouve um rosnado. Suas pupilas dançam em seus olhos, olhando agilmente para todas as direções possíveis. Um movimento mal-calculado poderia ser o seu fim. Os arbustos movimentaram-se à frente. Ele armou seu arco, carregando-o com duas flechas.

− Venha, bebê. Venha para o papai.

O suor escorria por sua testa. Todos os seus movimentos eram pausados e calculados. Até sua respiração estava mais controlada e pausada. Outro rosnado. Mais uma vez os arbustos movimentaram-se à sua frente. O caçador deu um passo para trás, agachando-se para conseguir apoio. A floresta estava mais sombria do que de costume.

− Vamos, o que está esperando... mostre-se...! – sussurrou ele.

Um bando de morcegos passou voando pela cabeça do caçador. O mesmo não moveu um único músculo. Estava compenetrado em seu objetivo. Mas não podia avançar, pois poderia virar caça. Puxou a flecha, provocando a elasticidade do arco. Agora bastava sua caça aparecer e o caçador soltar aquela flecha que seria o sopro mortal. Sua mira era quase perfeita. Com certeza seria fatal.

Outro rosnado. O caçador via o pêlo cinzento daquele animal. Podia sentir já sua respiração quente em seu rosto.

− Venha! – gritou ele.

A fera urrou e pulou em direção ao caçador, com as garras à mostra. O som de um assobio no ar. O som de um impacto. Um uivo doloroso. O barulho de algo pesado caindo ao chão. O caçador levantou-se, vitorioso.

− Finalmente peguei você, Lupus – disse o caçador.

Ele fitava sua caça abatida no chão. A fera voltava à forma humana.

− Flechas com pontas de prata. Nunca falham contra sua raça – murmurou ele.

Deu as costas à sua caça e caminhou na direção oposta, com seu arco agora preso em suas costas.

Caminhou até chegar a uma cabana. A cabana que era sua casa. Imediatamente uma mulher de cabelos negros e aparentando pouca idade escancarou a porta, correndo em sua direção e atirando-se em seus braços. Os lábios tocaram-se com energia. Após um longo beijo, o caçador fitou-a, com um largo sorriso nos lábios.

− Consegui. Finalmente abati o Lupus.

− Usou prata?

− Sim. Os licantropos são vulneráveis à prata. Acertei bem no coração.

− Fico aliviada. Não conseguia mais suportar conviver com o perigo.

− Eu matei o imortal. Tirei a vida daquele que não podia dá-la por meios normais. Este foi o último.

− E os vampiros?

− Extintos.

− Você matou todos?

− Consegui destruir algumas tocas. Tive ajuda de outros caçadores.

A mulher abriu um largo sorriso.

− Meu bravo guerreiro!

Lançou-se em seus braços. Os lábios colaram-se. As mãos deslizavam pelos corpos um do outro, promovendo carícias sem malícia. Ficaram dessa forma durante vários e longos minutos.

− Vamos entrar. Você deve estar faminto! – disse a mulher.

− Com certeza!

E os dois entraram. A cabana era modesta, feita toda de madeira rústica, com dois cômodos e uma sala onde tinha uma mesa com dois lugares e um fogão à lenha. Duas janelas razoáveis faziam toda a iluminação da habitação. O caçador sentou-se.

− Tyberius, fiz coelho hoje, está bem?

O caçador sorriu.

− Claro, tudo bem, Morgana.

A mulher serviu-se e posteriormente serviu ao marido. Os dois sentaram à mesa em silêncio. Comeram devagar, saboreando cada mordida. A carne estava macia e muito saborosa.

As chamas atrás deles, no fogão à lenha, ainda estavam acesas. Eles continuavam comendo. O fogo ia aumentando aos poucos. Sim, a carne estava muito boa. Num estouro, as chamas ficaram enormes. Assustado, o casal caiu no chão.

− Eu sou aquele que lhes dirá a verdade! – disse uma voz masculina e majestosa vinda de dentro das chamas.

Tyberius observava incrédulo. Morgana mal pestanejava.

− Eu sou a Fênix, a ave da imortalidade. Você, caçador dos imortais, cometeu um grande pecado. Julgou por raça, e não por indivíduo. Matou licantropos inocentes, que se escondiam para não machucar a humanidade. Assassinou vampiros com alma, inofensivos. Caçou gárgulas impiedosamente, matando muitas dessas criaturas sombrias que nenhum mal haviam feito ao seu povo.

− Essas criaturas nos caçam! Somos gado para elas! – defendeu-se Tyberius.

− O que vai acontecer?! – perguntou Morgana, desesperada.

A Fênix a fitou com os olhos amarelos. Suas penas cor de fogo emitiam um brilho quase ofuscante.

− Daqui a três meses você, esposa do Caçador de Imortais, entrará em um ciclo especial de fertilidade. Durante os próximos três anos dará à luz três filhos. O trio terá o dom da imortalidade. Aparentemente serão humanos, mas terão sangue de licantropo, vampiro e gárgula. Com a puberdade, a fera dentro deles despertará, e a metamorfose ocorrerá.

O casal não podia acreditar no que ouvia. A Fênix continuou.

− Devem ensinar-lhes os valores dos mais nobres humanos. Devem dar a eles a força para serem guerreiros de justiça. Terão a força dos seres da noite, mas a alma do humano. Abominem de suas mentes o preconceito. Que assim seja.

Mais uma vez as chamas aumentaram espantosamente, para com um estrondo desaparecerem. A Fênix havia ido embora. Morgana se joga aos braços de Tyberius, e chora desesperadamente.